O acervo do Arquivo Histórico da Irmandade de Santa Cecília & Montepio Filarmónico é resultante da gestão profissional dos músicos de Lisboa e Corte, desde o Séc. XVII até início do Séc. XX. É composto de documentação contabilística e administrativa da actividade musical da classe. Do Séc. XX em diante continua a haver documentação, já não da corporação, que se desfez em 1904, mas da associação de socorros que permaneceu activa até aos nossos dias com uma parte dos profissionais da arte musical.
Do Séc. XVII e da primeira metade do Séc. XVIII pouco sobreviveu devido à destruição causada pelo Grande Terramoto de 1755. De um modo sistemático, só existem documentos a partir de 1789, data da tomada de posse da Casa do Despacho na Igreja dos Mártires. Entre 1832 e 1838 são poucos os documentos, mas não menos importantes. A Irmandade esteve desactivada, mas a produção documental mostra-nos que aguns músicos permaneceram na sede, a tentar resolver pontas soltas da gestão finda e a resistir às consequências dos ventos de mudança trazidos pelo novo tempo político.
Em 1834, a parte dos músicos que se manteve a trabalhar para voltar a reunir a classe, cria o Montepio Filarmónico. O arquivo do Montepio Filarmónico vai reflectir não só a reorganização da classe dos músicos profissionais de Lisboa, perdida entre dois tempos - o Antigo Regime e o Regime Liberal -, mas também as mutações sociais que o novo tempo histórico trouxe à sociedade e às instituições em geral.
A gestão da classe musical sob o controlo do Montepio Filarmónico trouxe novos modelos burocráticos. A contabilidade e o expediente passam a reflectir a nova organização, mais complexa. O antigo modelo das duas mesas - Administrativa e Assembleia Geral - é substituído por diversas comissões: Comissão Fiscal, Comissão de Caixa, Comissão Administrativa, Comissão de Música e Assembleia Geral. O antigo expediente, apenas dividido entre enfermeiro e procuradores da mesa e da irmandade é substituído por séries do expediente de cada comissão. Com as séries contabilísticas sucede a mesma coisa. Aos dois tesoureiros da antiga organização sucedem quatro recebedores, com livros próprios. Passa a haver livros para a escrituração dos contributos para as pensões, novidade deste sistema, que substituiu o princípio do socorro a quem necessita.
O vocabulário do novo paradigma também vai mudar, embora não no imediato. De início ainda são utilizados alguns termos do Antigo Regime. A título de exemplo, em 1834 designam as primeiras regras estatutárias como “Compromisso” e só nos seguintes desaparece para dar lugar à terminologia “Estatutos”.
Com o reerguer da irmandade em 1838, a anexação a esta do Montepio em 1843, da Associação Musica 24 de Junho em 1846, da Academia Melpomenense em 1848 e da criação da Caixa Económica FILIAL, o arquivo dos músicos de Lisboa passa a ser constituído por cinco fundos distintos. Tem ainda uma colecção de partituras provenientes das diversas associações que se reuniram ao Montepio Filarmónico e à Irmandade de Santa Cecília, do pagamento de dívidas de alguns músicos e de doações.
Importa relembrar, que as diversas associações reunidas na sede da irmandade durante o período Liberal foram criadas e constituídas pela mesma corporação dos músicos de Lisboa, anteriormente organizada sob a protecção de Santa Cecília, numa Irmandade da mesma invocação.
O séc. XIX foi marcado por inúmeras crises no seio da classe, que se repercutiram na produção documental. Em 1855 a classe dividiu-se em duas: Isabelões e Cecilianos. Conseguiram resolver as divergências e voltar a reunir-se em 1857. Todavia, não consta do nosso acervo a eventual documentação produzida pelos Isabelões, associados sob a designação de Irmandade de Santa Isabel Rainha de Portugal, que esteve sediada na Rua dos Douradores, no edifício do extinto convento Corpus Christi.
Em 1877 dá-se a crise entre amarelos e encarnados. O confronto é entre a presidência de João Pedro Rio de Carvalho (amarelo) e 14 músicos fortes do Teatro São Carlos (encarnados). Em consequência desta crise, em 1884 eclode uma das grandes crises vividas no interior da associação, que culmina com a substituição do conselho permanente da Associação Musica 24 de Junho por uma direcção eleita de 3 em 3 anos. Em consequência, a escrituração só será organizada em 1886, queixando-se a direcção da falta de alguns documentos.
A derradeira crise, que acabou com o projecto da agremiação de classe ocorreu entre 1894 e 1903. A Direcção da Mesa do Montepio Filarmónico não lançou registo das actas durante este período O facto é assinalado pelo secretário da Mesa de 1904, sob a presidência de Júlio Taborda, antes do registo da 1.ª acta.
No Séc. XX ainda se formará um pequeno fundo decorrente da efémera existência da Sociedade Portuguesa dos Concertos Sinfónicos, que entre 1923 e 1925 usou a antiga sede dos músicos para funcionar e alguns dos livros da extinta Associação Musica 24 de Junho para a escrituração.
A experiência registada na documentação deste arquivo ao longo dos tempos, por todos quantos contribuíram para a organização e dignidade dos músicos e da arte musical, é preciosa para o autoconhecimento desta classe profissional, mas também da sociedade em geral.
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